Resenha: O Universo Elegante
Autor: Brian Greene 1999 – Editora Companhia das Letras

 

Apesar de lançado em 1999, O Universo Elegante mantém sua agradabilidade e boa fluência de leitura durante todo o conteúdo apresentado pelo físico norte-americano Brian Greene, especialista na área de Teoria das cordas e grande divulgador científico. O sucesso de O Universo Elegante foi tão grande que foi criado uma série documental na rede de tevês PBS com o programa NOVA - The Elegant Universe. Isso com certeza ajudou a difundir a ideia básica da teoria das cordas por todo o planeta e, como boa propaganda, levar jovens mentes a estudar essa área empolgante da física teórica.

 

O livro tem um objeto bem claro: explicar o básico do que é a teoria das cordas por meio de analogias simples e mais pictóricas possíveis, tentando convencer o leitor que a teoria por ele (Greene) estudada é a mais promissora para a unificação das leis da física.

 

Na primeira parte, há grande competência em preparar o leitor com a discussão sobre temas já conhecidos na área científica e já divulgado em bom número na sociedade como um todo: Os conceitos da Teoria da Relatividade de Albert Einstein e os fundamentos da Mecânica Quântica. Ele inicia a discussão abordando conceitos da chamada Teoria da Relatividade Especial de Einstein, que é construída sob dois postulados fundamentais: A constância da velocidade da luz e o conceito de referencial inercial, aonde as leis físicas têm de ser válidas – e iguais - em qualquer deles. Há um bom uso de diversas analogias com o cotidiano, usando irmãos (João e Maria) para descrever diferentes observadores e como eles visualizam (e até medem) de modo diferente os mesmos fenômenos como consequência dos postulados da Relatividade Especial.

 

Quando o autor busca discutir os fenômenos gravitacionais da Teoria da Relatividade Geral de Einstein, o procedimento continua, onde há uma contextualização histórica, concatenando grandes ideias anteriores às de Einstein e mostrando que há implicações no que foi descoberto (inventado?) por Einstein na construção da sua teoria. As figuras usadas como recurso visual ajudam em grande parte à compreensão de fenômenos mais complexos, apesar de alguns temas ficarem difícil de entendermos em primeira leitura. O princípio da equivalência foi um deles. Por outro lado, essas dificuldades são pontuais e o leitor pode seguir a leitura sem prejudicar o entendimento do cerne do livro.

 

Em relação à Mecânica Quântica, Brian Greene consegue destrinchar os fenômenos quânticos de forma limpa, clara, e ainda por cima deixa claro algumas dificuldades que a própria teoria impõe aos físicos, como sair do mundo determinístico e adentrarmos no mundo probabilístico. Contudo, fica explícito nos tópicos seguintes que é uma das teorias mais bem fundamentadas pelo seu caráter experimental bem estabelecido.

 

Antes de adentrar na parte III, relacionado ao tema mais específico do livro, há uma breve descrição da visão do que chamamos de Teoria de Campos, onde há uma rápida explicação sobre a relação da simetria com grandezas físicas que se mantêm constante durante um certo fenômeno físico e como isso irá se relacionar com a supersimetria, a ser discutida na parte adiante do livro.

 

Adentrando na terceira parte, chamada de dança cósmica, onde é tratado a Teoria das cordas, há toda uma construção histórico-teórica para dar ao leitor a impressão de algo cheio de insights. Por outro lado, dificuldades da comunidade científica em aceitar novas ideias são sempre lembradas quando há uma citação de novidade que a teoria das cordas pode descobrir. Durante o livro isso soa um pouco como “Estamos descobrindo algo genial e vocês não querem aceitar”.

 

Por toda a leitura da parte da teoria das cordas há uma vasta explicação sobre as dificuldades encontradas, como as 5 diferentes teorias de cordas e o surgimento da Teoria-M, do Físico Edward Witten, que conseguiu unificar todas essas teorias em uma só, mas que precisa de mais dimensões que as quatro do espaço-tempo, e que isso pode ser um problema. Por outro lado, o autor tende a querer naturalizar a existência dessas dimensões extras (num total de 11 dimensões) por ter encontrado uma solução matemática que se encaixa numa possível solução física para essas dimensões (que é o caso das dimensões enroladas e compactas – Kaluza-Klein).

 

Há pontos muito interessantes no todo do livro. Na continuidade, após a apresentação da teoria das cordas, há o questionamento sobre verificação experimental, onde o autor tenta justificar a capacidade tecnológica unicamente responsável pela verificação, como se o desenvolvimento da teoria das cordas estivesse praticamente consolidado, o que, a meu ver, soa presunçoso. Por outro lado, é bem explicado que a complexidade matemática é compatível com os objetivos da teoria em se tornar uma teoria unificadora de toda a física, e ela tem “aplicações” tanto em física de partículas quanto em cosmologia. Pela época de lançamento do livro, ainda não tínhamos o funcionamento do acelerador LHC com o objetivo da procura de partículas chamadas supersimétricas, o que é dito pelo autor como uma promissora verificação da Teoria-M. Esse passo foi dado e até o momento, nenhum sinal de supersimetria foi encontrado. Ao final Brian Greene busca discutir diversos aspectos que coloquem a teoria das cordas como a mais promissora teoria de tudo, respaldando seu argumento por haver inúmeros pesquisadores de altíssimo gabarito na área e avanços importantes que a colocam com esse status.

 

Como o livro tem por objetivo promover a teoria das cordas, é inegável que os problemas apresentados por Brian Greene não são realmente problemas, mas apenas dificuldades teórico-matemáticas que servem de motivação para atrair pesquisadores para o foco nessas barreiras a serem superadas. Além disso, como é sabido, a divulgação em massa da teoria das cordas é parte de um projeto maior, com grandes investimentos do próprio governo dos Estados Unidos como estratégia para desenvolvimento científico-político perante adversários no resto do mundo. É fácil ver que a promoção da teoria das cordas é imensa, pois além de livros, há materiais de audiolivros, documentários, citações em séries (como em The Big Bang Theory) e muitas vezes de forma a diminuir outras áreas quase “concorrentes”, como a gravitação quântica em loop e outras propostas de quantização da gravidade. Isso me incomodou um pouco pois, por mais válida que seja a promoção de uma área promissora, invalidar suas concorrentes sem comprovação, mas apenas por críticas, se mostra uma necessidade de promoção além da conta, coisa que uma teoria que tem avanços significativos não deveria necessitar.

 

O autor é muito feliz neste lançamento por conseguir dar um apanhado em todo o tema, discutir problemas ainda existentes, possíveis aplicações, tudo bem fundamentado com a descrição das teorias “incompatíveis”, que são a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica e da corajosa proposta da teoria das cordas em tentar ser a teoria de tudo, que unificará a física por meio da sua proposta de cordas vibrantes. A leitura é leve e bem fluida. Quando há uma leitura mais densa ou até mais técnica, Brian Greene avisa de antemão para não perder o leitor em algo quase maçante e/ou repetitivo. Contudo, pra quem conseguir se manter por esses tópicos, é sugerido seguir adiante para não perder nenhum aspecto descrito pelo autor para uma maior compreensão dos objetivos da teoria das cordas.

 

Dada a temporalidade do livro(1999) acaba sendo, também, um documento histórico do processo de construção de uma teoria científica, haja visto o contexto político mencionado no texto!

 

Recomendadíssimo!

 

Elias Brito Alves Junior